28/04/2026
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Cubano com hipertensão denuncia: ‘Estão nos matando aos poucos

Cubano com hipertensão denuncia: 'Estão nos matando aos poucos

Os cubanos têm recorrido cada vez mais ao mercado ilegal para conseguir medicamentos, diante da falta de produtos em hospitais e farmácias estatais. Em Havana, lojas clandestinas se espalharam pelas ruas, vendendo remédios, produtos de higiene e insumos hospitalares básicos, geralmente trazidos do exterior. Esses produtos são vendidos sem garantia de origem e sem necessidade de receita médica.

Para a maioria dos habitantes da ilha, esses pontos de venda deixaram de ser uma alternativa esporádica e se tornaram a principal — e, em alguns casos, única — forma de acesso a tratamentos de saúde.

Eduardo Moré, 57, é aposentado e recebe uma pensão mensal de 1.500 pesos (cerca de R$ 15 na cotação informal) do governo cubano por ser portador de HIV e ter insuficiência renal. Além dessas doenças, ele também sofre de hipertensão. Atualmente, recebe gratuitamente os medicamentos para o HIV e consegue manter a hemodiálise três vezes por semana. Já os remédios para controlar a pressão arterial e a retenção de líquidos passaram a ser comprados no mercado paralelo desde o ano passado.

Os dois medicamentos de que precisa — Captopril, para a hipertensão, e o diurético Furosemida — custam cerca de 500 pesos (R$ 5) cada um, ou seja, dois terços de sua renda mensal. “Tenho que escolher entre comprar os medicamentos ou me alimentar. Os dois não dá”, afirma.

Moré, que já não recebe a cesta básica do governo desde o fim do ano passado, vive sozinho no bairro Centro Havana. Ele enfrenta cortes de energia que chegam a durar entre 15 e 20 horas por dia, o que compromete o abastecimento de água. “Os Estados Unidos dizem que querem pressionar o governo cubano, mas quem sofre é o povo. Que ser humano aguenta ficar sem comida, sem água, sem luz e ainda sem medicamentos? Estão nos matando aos poucos”, desabafa.

No ano passado, o aposentado precisou de uma transfusão de sangue após uma queda no nível de plaquetas. O banco de sangue do hospital onde fazia hemodiálise não tinha bolsas do seu tipo. Familiares organizaram uma arrecadação para comprar o insumo no mercado paralelo: uma única bolsa custou 10 mil pesos cubanos (cerca de US$ 20, ou R$ 100).

Rudy Gonzales, 38, motorista de triciclo em Havana, levou uma facada no braço em julho do ano passado durante uma tentativa de assalto. Ele afirma que foi ao Hospital Clínico Cirúrgico Hermanos Ameijeiras, mas não foi atendido por falta de insumos básicos. “Me mandaram comprar fios cirúrgicos e agulhas para sutura e voltar em seguida, porque não tinham como me atender sem esses produtos”, relata. “Antes, eu ia ao hospital e tudo era gratuito. Agora, temos que pagar por tudo.”

O mercado paralelo de itens médicos ganhou força após a morte de Fidel Castro, em 2016, e se intensificou no primeiro mandato de Donald Trump. A escassez de medicamentos deixou de ser pontual e passou a afetar a ilha de forma recorrente.

Uma aposentada de 64 anos que importa remédios do Panamá, México e Estados Unidos para revendê-los em Havana Velha contou que os importados também são necessários para ela, que é hipertensa, diabética e tem cardiopatia. Ela falou sob condição de anonimato.

Mas a maioria dos cubanos não consegue acessar esses medicamentos. Uma cartela de dipirona custa 700 pesos (R$ 7); a de paracetamol, 500 (R$ 5). O salário mínimo oficial é de 2.100 pesos por mês, o que equivale a cerca de US$ 4 (R$ 20) com a inflação e a desvalorização da moeda.

Um médico cardiologista do Hospital Hermanos Ameijeiras disse que as condições se agravaram desde janeiro. Profissionais de saúde têm usado recursos próprios para adquirir insumos e medicamentos para pacientes. Em alguns casos, os custos são repassados aos pacientes. “É uma privatização forçada do sistema de saúde cubano. O capitalismo já chegou aqui, mas da forma mais desigual e cruel. Quem tem dinheiro sobrevive; quem não tem, só resta rezar”, afirmou o médico, em anonimato.

Em fevereiro, o ministro da Saúde cubano, José Ángel Portal Miranda, disse à agência Associated Press que as sanções dos EUA ameaçam a “segurança humana básica”. Segundo ele, cerca de 5 milhões de cubanos com doenças crônicas podem ter seus tratamentos comprometidos.

Sobre o autor: Centro de Noticias

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